Livre_expressao

Terça-feira, Março 03, 2009

Amor Bastante

Quando eu vi voce
tive uma ideia brilhante
foi como se eu olhasse de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num so instante

basta um instante
e voce tem amor bastante.

Paulo Leminski

Terça-feira, Janeiro 27, 2009

Clara

Eu sentei embaixo da arvore
E fiquei observando ela andar de bicicleta
Andava em círculos e fechava os olhos nas curvas mais abertas
Ela sorria e piscava de vez em quando
Usava fones de ouvido e devia estar escutando rock
Não daqueles pesados
Ou desajeitados
Devia mal prestar atenção nos solos de guitarra
Nas linhas de baixo
Na voz do cantor
Apenas cabia no contexto e por isso ela cantava junto
Inventando a letra quando não sabia o resto
E pouco se importava.
Ela não sabia falar inglês
Não usava perfume importado
E so comia carne aos fins de semana
Quando ia na casa do pai.
Na escola, sentava na ultima carteira
E ficava olhando pela janela
O professor já sabia
E por isso fazia a ela a pergunta mais dificl
Ela respondia com precisão.
Um dia ela resolveu que iria pegar um barco.
Barco grande
Cheio de redes de pescador
Pois ela não teve duvida.
Mergulhou na parte funda do mar
E nadou nadou nadou mar a fora
Balançando sua linda calda prateada refletida com a luz do luar.
As vezes canta enquanto eu durmo
E eu sei que é para mim.
Sorrio, viro pro lado, e volto a dormir em paz.



Ariadne Catanzaro

Sexta-feira, Junho 27, 2008

Day after

Sábado, Maio 31, 2008

Tic-tatear para não doer

Comecei a escutar o tempo passar
Como a sensação de andar de carro com a janela aberta
O tempo soprava no meu ouvido
Ruía
Gelava meu rosto.
O tempo passava rápido demais
Para que eu conseguisse agarra-lo
Queria prende-lo
Faze-lo parar
Mas não tentei
Já tinha maturidade o bastante para saber que ele não ia parar.
Eu gritava por dentro: Parem os relógios, parem os relógios.
Pare o vento de soprar
Parem as ondas de quebrar
Parem todos os furacões.
Uma brusca ventania abriu a porta do meu peito
Espatifou-se o meu coração no chão
O tic tac do relógio só parecia repetir: ele me traiu. ele me traiu. ele me traiu.
Eu tentei agarrar o tempo e faze-lo parar.
Parar de tic-tactear na minha orelha
Parar o tempo para ter tempo de pensar: e agora o que vou fazer?
Posso fingir que não sei. Posso acreditar em qualquer coisa e manter o relógio tic-tateando.
Pensei em voltar atrás, em recomeçar o dia em que o conheci.
E se pudesse optar, não teria conhecido.
Mas não consegui voltar o tempo.
Então tentei acelera-lo. Para daqui uns dois anos, onde não saberei mais onde ele está
Onde ele não saberá de mim
Onde eu não vou ter que chorar as primeiras lágrimas desta dor.
Usei toda a minha réstia de força para fazer o tempo parar.
Quando abri os olhos, vi que os pássaros ainda cantavam.
Não pude ouvir as ondas do mar, mas sabia que elas ainda quebravam.
O vento havia parado de soprar o tempo no meu ouvido gelado
Mas aqui dentro, meu coração, não tinha mais volta, estava estraçalhado em mil pedaços. Os pedaços se espalharam por muitas lembranças, e não consegui recupera-los para refaze-lo.
Reconstruir um coração... ah isso leva tempo. Nem Deus conseguiria conserta-lo... nem em sete dias. Nem em sete anos.
Essa tarefa era mesmo só minha.
Eu sabia, sim já sabia, que o tempo continuaria a passar, e este sim, talvez pudesse me curar.
Parei de tentar fazer o tempo parar. Queria agora que ele reencontrasse os pedacinhos de mim, os destroços do meu amor, e os juntasse, como um quebra cabeça infinito.
Tive a certeza de que um dia, depois do tempo passar bastante, meu coração estaria intacto novamente.
Então rezei, rezei com veemência para que o tempo voltasse a soprar no meu ouvido, me causando aquela tontura de dor, dor que eu sabia que um dia iria passar com o tempo. Talvez não passasse tão correndo no meu ouvido. Mas um dia passava. E eu não precisava esperar. Pois de nada adiantava.
Eu sabia que não havia mais nada que eu pudesse fazer. Entreguei os pontos e fui chorar as primeiras lágrimas desta dor.


Ariadne Catanzaro

Terça-feira, Abril 08, 2008

Mil perdões - Chico Buarque


Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz
Te perdôo
Por pedires perdão
Por me amares demais

Te perdôo
Te perdôo por ligares
Pra todos os lugares
De onde eu vim
Te perdôo
Por ergueres a mão
Por bateres em mim

Te perdôo
Quando anseio pelo instante de sair
E rodar exuberante
E me perder de ti
Te perdôo
Por quereres me ver
Aprendendo a mentir (te mentir, te mentir)

Te perdôo
Por contares minhas horas
Nas minhas demoras por aí
Te perdôo
Te perdôo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdôo
Por te trair

Domingo, Março 30, 2008

Quando percebi que tinha medo

Quando percebi que tinha medo
recuei.
Não tive vontade de gritar ou de mostrar os dentes.
Achei que a vida é mais do que uma ladeira escorregadia.
Achei que eu não ia conseguir.
Prossegui
Com cuidado dobrado pelos carros que vinham cruzando
Rodas prateadas
Buzinas incessantes
E faróis de milha.
Na mira
Muitas coisas que eu não conseguia focar.
Um passa aqui e grita
Outro levanta a mão
E o som de música erudita me acorda.
Há corpos estendidos no chão sujo
E a frieza do outono
Me corrói em culpa
Pela falta de desejo e libido suspenso.
Até achei que fosse possível
Suspirei inúmeras vezes sem que viesses a notar.
Escrevi teu nome mil vezes
Para não desgrudares de mim.
Mãos trêmulas e lábios molhados das lágrimas
Chamavam por ti
E tu já não sabias mais o que fazer
Quantas lágrimas hei de chorar ainda
Sem saber direito do que tenho medo
Absurdas as cócegas
As coceiras
A cegueira e a gagueira.
Um vômito sem ânsia
E uma música sem melodia.
Com o ritmo eu nem me preocupo mais.
Frenética já fui
Hoje danço dormindo
Sem movimentos
E com fantasmas ao redor
Sempre eles.
Do que eu estava falando mesmo?
Esqueci de tocar no assunto
Porque era mais cômodo.
E o móvel acumula perfumes, rendinhas e transparências
Óculos escuros escondem o inchaço
E aspirina melhora a dor.
Minha máscara já grudou na pele
E eu espero que me fortaleça.
Em vão.
Medos são para se enfrentar.
Mesmo que pareça mentira.
Mentira, eu não gosto de contar.
Conto carneirinhos, páginas, passos, metros, comprimidos e miligramas.
Mas mentiras, eu não sei contar.
Provações diárias e sorrisos falsos, que cobrem as lágrimas mais uma vez.
Um rio que pára de fluir, não. Isso não existe.
Não é possível, graças a deus.
Flui, flui. Os quadris voltarão a se movimentar
Sim, como não.
Medos são em vão, pode crer e ter certeza disso.
Mostre-me teu cartaz enfeitado.
Aplaudirei sempre pela admiração que guardo em mim.
Os medos vão evaporar e derreter.
Vão chover na grama fértil e muito mato vai nascer.
Aquele tipo de mato que tem florzinhas lilás com nome de mulher.
Flores pequenas e femininas
Como medos bobos, que teimo e aumentar.

Quarta-feira, Janeiro 30, 2008

Linha descruzada

Com anseios de não ser reconhecida
resolvi te ligar.
O telefone tocou três vezes antes de você atender.
Tinha uma voz de sono ou de seriedade do outro lado da linha
Respirei antes de responder
Você, com ansiedade, repetiu “alo”
Isso me fez tremer
Gaguejei um “oi”
E você não entendeu.
Não entendeu minha aflição
E minha ânsia de te escutar
Tive então um acesso de tosse
Engasgada na tua pressa
Abafei o telefone com a blusa
E aí foi demais para você
que com arrogância perguntou
“com quem quer falar?”
E já era tão óbvio que mal pude responder
Meus olhos ficaram úmidos
E apesar da tosse ter cessado
Você me perguntou “qual é o seu problema?”
Isso me desmoronou de uma vez por todas
Quieta ainda consegui decifrar tua respiração
Seguida de um confuso tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu-tu....



Ariadne Catanzaro